Análises

Cidades para pessoas são feitas de “homens lentos”

Jan Gehl ajudou a transformar a qualidade de vida em Copenhague. Na Rio+20, ele marcou presença na cidade para reafirmar suas ideias

Adriana Sansão·
2 de julho de 2012·12 anos atrás
Pedestres passem em Copenhagen. Foto: Pixabay.

Quando a cidade de Copenhagen, ainda nos anos 60, transformou a área de Strøget na primeira zona exclusiva para pedestres no mundo, muita gente deve ter se perguntado: mas por onde vão passar todos os carros? E os estacionamentos, onde ficam? Passados mais de 40 anos, essa pergunta, embora para nós ainda pareça tão natural, para eles já é um tema superado. Após notável revolução em seu sistema de mobilidade, Copenhagen prepara-se para concorrer ao título da melhor cidade para ciclistas no mundo.

Pois o pioneiro nessas ideias, o arquiteto dinamarquês Jan Gehl, esteve no Rio +20 e falou sobre essa experiência para os cariocas. Gehl é Professor Emérito de Projeto Urbano da Escola de Arquitetura de Copenhagen, e realizou uma conferência no Instituto de Arquitetos do Brasil, dentro das atividades do evento “Cidade Sustentável – expressão do século XXI”. O tema central de seus estudos e projetos é a relação entre o ambiente construído e a qualidade de vida das pessoas que vivem nas cidades.

Preocupado em transformar o meio urbano hostil, dominado pelos automóveis, em lugar para pedestres e ciclistas, ele defende o projeto da “cidade para pessoas”. Para um auditório lotado e ansioso, começou sua apresentação afirmando que edifícios sustentáveis – prática arquitetônica emergente tanto em países desenvolvidos como em desenvolvimento – por si só não significam uma cidade sustentável. Para ele, o planejamento urbano deve ter um olhar abrangente, com foco principal na atuação sobre os espaços públicos. Segundo ele, a cidade para pessoas tem como características fundamentais ser animada, atraente, segura, sustentável e saudável.

“A cidade animada é a que permite o encontro de pessoas no espaço público, sejam elas conhecidas ou não, o que está diretamente ligado à qualidade das calçadas e praças”.

A cidade animada é a que permite o encontro de pessoas no espaço público, sejam elas conhecidas ou não, o que está diretamente ligado à qualidade das calçadas e praças, e aos usos e atividades dos edifícios ligados a elas. Relacionada a esta, a cidade atraente é aquela dotada de uma escala humana, com menos stress, barulho e poluição, onde podemos olhar para outras pessoas, ver e sermos vistos, e onde os carros têm uma fração do espaço dedicado aos pedestres.

A cidade para pessoas também deve ser segura, no sentido literal da palavra, onde os pedestres não estejam sujeitos a riscos no uso dos espaços públicos, e também sustentável, onde o desenvolvimento das atividades humanas não cause impactos negativos na sobrevivência do domínio público ao longo do tempo. E, finalmente, a cidade para pessoas é saudável, onde os espaços públicos são convidativos para caminhar e pedalar, e as pessoas são fisicamente ativas.

O ser humano pratica na cidade tanto as atividades obrigatórias, que incluem morar, trabalhar, comer; quanto as opcionais, como por exemplo, praticar esportes, passear; e as sociais, como os encontros e festas. Para permitir o pleno desenvolvimento dessas atividades, todas as ações devem ser feitas para convidar as pessoas a caminharem, pedalarem e a serem menos sedentárias, e isso envolve ampliar e qualificar esses percursos “lentos”, e, em ação inversa, reduzir cada vez mais o espaço dos automóveis.

Essas ideias, em si, já não são inovadoras. Mas ainda são balizadoras e inspiradoras na busca de melhorias nas nossas cidades. Para que se concretizem, precisam tanto dos técnicos, que vão pensar e executar as melhorias, como da população, mudando de comportamento, reduzindo o uso do automóvel em troca de formas não motorizadas de deslocamento ou de uso do transporte público.

A vitória dos “homens lentos” seria também a das cidades para pessoas, em um mundo contemporâneo que ainda coloca a velocidade em um pedestal.

Leia Também
Vendi o carro, vou de avião
Em Copenhague, 93% vivem satisfeitos com a cidade
Londres a caminho de se tornar uma cidade para pessoas

 

 

 

  • Adriana Sansão

    Adriana Sansão, arquiteta e urbanista, é professora adjunta da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal d...

Leia também

Notícias
29 de fevereiro de 2024

Queimadas na Amazônia atingem número recorde em fevereiro

Puxado por Roraima, número de focos de calor registrados pelo INPE no mês é o maior em 25 anos de medições

Reportagens
29 de fevereiro de 2024

No quadrilátero ferrífero, em Minas Gerais, a descoberta de uma árvore é também esperança

Embora tenha caído a taxa de desmatamento na região no último ano, se acende um alerta para a fiscalização da extração de minérios, próxima da região

Salada Verde
29 de fevereiro de 2024

Oportunidade | Gem Saviour abre vaga para estágio em marketing

Estudantes a partir do 5º período que se interessem pela temática ambiental podem se inscrever entre 1 e 10 de março. Vaga é para o Rio de Janeiro

Mais de Gem Saviour

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.