Análises

A urgência do verde na vida das crianças no pós-pandemia

Crianças passam cada vez mais tempo em frente a telas e menos brincando ao ar livre. Déficit de natureza pode causar problemas de saúde

Thaís Machado Gusmão·
24 de junho de 2022·2 anos atrás

Após dois anos extremamente desafiadores, as aulas presenciais foram retomadas em todo o Brasil. O retorno às salas de aula, que vinha sendo gradual e desigual por causa das diferenças socioeconômicas e epidemiológicas em cada localidade do país, deve ser comemorado como símbolo de uma reconstrução necessária. Além de toda a importância da escola para a qualidade do processo de ensino-aprendizagem, reativar os espaços de convivência e as relações sociais tão prejudicadas pelo isolamento social imposto pela pandemia torna-se uma questão-chave para o nosso futuro.

Crianças, adolescentes e jovens foram afetados de forma muito singular nesses últimos anos. Segundo o estudo “Situação Mundial da Infância 2021”, elaborado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), o impacto da Covid-19 na saúde mental e bem-estar desse público ainda será sentido por muitos anos. Segundo a pesquisa, ao menos um em cada sete meninos e meninas com idade entre 10 e 19 anos vive com algum transtorno mental diagnosticado. Além disso, um em cada cinco adolescentes e jovens de 15 a 24 anos afirma que, muitas vezes, se sente deprimido ou tem pouco interesse em fazer alguma atividade.

Esse cenário deveria estar no centro das preocupações de toda a sociedade neste momento. Afinal, é fácil imaginar que o futuro da nação pode ser comprometido por causa das consequências dos transtornos emocionais dos profissionais e cidadãos que estão em formação. Por isso, a Unicef pede que a promoção da saúde mental de todas as crianças, adolescentes e também dos cuidadores sejam priorizadas nos próximos anos.

O momento é oportuno para enfrentar alguns desafios que já estavam presentes antes mesmo da pandemia, mas que foram agravados com o isolamento social. Um exemplo é o chamado déficit de natureza, que vem aumentando muito nas últimas gerações e revela mudanças de hábitos prejudiciais à saúde mental de toda a população e, de um modo especial, da infância.

Em média, as crianças passam até 44 horas por semana na frente de uma tela e menos de 10 minutos por dia brincando ao ar livre.

Especialistas do mundo todo já alertam sobre os diversos riscos causados pelo excesso de telas, como barreiras ao desenvolvimento cognitivo; prejuízos em áreas da linguagem, memória e atenção; além do aumento da ansiedade, irritabilidade e obesidade, entre outros problemas. Os sinais estão claros e precisamos urgentemente criar oportunidades de interação e aprendizagem ao ar livre, pois mesmo um curto período de tempo por dia em atividades externas ajuda as crianças a se concentrarem no aprendizado.

Segundo estudo do “Child Mind Institute”, dos Estados Unidos, uma criança gasta atualmente menos de sete minutos por dia em brincadeiras não-estruturadas. Isso é dramaticamente menor que qualquer geração anterior. Mas é importante lembrar que as crianças aprendem muito pelo exemplo e são reflexo dos pais e cuidadores. Portanto, a reflexão vale também para os hábitos das famílias.

A ideia não é estimular um sentimento de culpa nos adultos, mas, ao contrário, mostrar que é possível reconectar as famílias com a vida que pulsa lá fora, para além das áreas fechadas e protegidas e, principalmente, das telas. As famílias têm muito a ganhar se puderem se reaproximar da natureza, dentro das possibilidades e limitações de cada um. A situação é particularmente desafiadora no Brasil, pois segundo estudo da Lenstore Vision Hub, do Reino Unido, somos o terceiro país em que as crianças mais preferem utilizar dispositivos eletrônicos a realizar atividades ao ar livre, atrás apenas dos Emirados Árabes e dos Estados Unidos.

É natural que pais e professores estejam preocupados com a recomposição e recuperação das aprendizagens defasadas, mas podemos aproveitar o contexto de saída da pandemia como oportunidade para reforçar a conexão entre a escola e as famílias para uma vida mais saudável. Não faltam subsídios científicos para sustentar essa mudança de hábitos e busca por uma educação integral que coloque a conexão com a natureza como prioridade.

Um esforço nesta direção é a Coleção Meu Ambiente, que disponibiliza gratuitamente materiais paradidáticos e vídeos de orientação para professores, com propostas de atividades para agregar o estudo do meio ambiente no cotidiano dos alunos do Ensino Fundamental de forma lúdica e interdisciplinar. O material mostra que é possível abordar temas ambientais de forma transversal, refletindo também sobre um futuro mais sustentável. No entanto, além de conhecimento teórico, precisamos proporcionar vivências que promovam a reconexão com a natureza desde a primeira infância, sempre com o apoio das famílias.

Por mais que a tecnologia faça parte da nossa rotina, não há nenhum aplicativo ou jogo virtual capaz de substituir o sentimento de conexão e descoberta que a criança tem ao vivenciar uma experiência na natureza. Certamente, as crianças não conseguirão lembrar qual foi o seu melhor dia em frente ao Youtube, mas terão na ponta da língua uma vivência especial e divertida na natureza.

As opiniões e informações publicadas nas seções de colunaseanálisessão de responsabilidade de seus autores e não necessariamente representam a opinião do site Gem Saviour. Buscamos nestes espaços garantir um debate diverso e frutífero sobre conservação ambiental.

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