Reportagens

Inversão dos polos

Enquanto o Tratado da Antártica estabelece um acordo de paz no continente, o derretimento do Ártico – impulsionado pelo aquecimento global – estimula a militarização da região

Jennifer Ann Thomas·Jonne Roriz·
16 de janeiro de 2024

De um lado, um tratado de paz. De outro, uma espécie de Guerra Fria. A Antártica, no Polo Sul, e o Ártico, no Polo Norte, são essenciais para regular o clima do planeta – e a ciência brasileira quer estar em ambos os territórios. Depois do conturbado período da pandemia de covid-19, o Programa Antártico Brasileiro (Proantar) – o mais longevo programa científico do país – retomou as expedições com capacidade total neste ano. A nova fase começa com a aplicação do planejamento estratégico para o período de 2023 a 2032, no qual o Brasil se propõe a transformar a atuação do país em um programa polar. 

Pela primeira vez na história, a temperatura média do planeta atingiu o aumento de 2ºC acima de níveis pré-industriais e, apesar das inúmeras consequências em diferentes países, as regiões polares são as mais impactadas pela mudança do clima. No Ártico, a temperatura durante o verão foi a mais alta desde o início das medições, enquanto a Antártica registrou a menor extensão de gelo marinho da história. Com a perspectiva tropical, a ciência brasileira vai investigar os efeitos das mudanças do clima e como as alterações nos polos podem impactar o Brasil. 

Foto: Jonne Roriz/ Nosso Impacto

Conexão austral

Em 1º de dezembro, quando se comemora o Dia Mundial da Antártica, o secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres, esteve no continente austral. Ao ver a redução das geleiras, Guterres afirmou: “o que acontece na Antártica não fica na Antártica”.

A Antártica, junto com o Ártico e os oceanos, ajuda a regular o clima do planeta. A superfície branca reflete a energia do sol de volta à atmosfera e resfria a água no seu entorno. O Oceano Antártico absorve cerca de 75% do calor em excesso na atmosfera e 40% do CO2 gerado pela atividade humana e removido pelos mares. Além disso, o círculo marinho que contorna o continente gelado conecta todas as bacias oceânicas, com exceção do Ártico. 

De acordo com o pró-reitor de pesquisa e pós-graduação da Universidade Federal do Rio Grande (FURG), Eduardo Secchi, os diversos eventos extremos registrados ao longo de 2023 – ondas de calor, enchentes, estiagem, queimadas etc – são, também, reflexo das consequências do aquecimento global na Antártica. “Todos os efeitos no clima do planeta estão conectados e a conservação da Antártica, e da sua biodiversidade, é de interesse mundial. O oceano é um só”, disse. 

Foto: Jonne Roriz/ Nosso Impacto

Para garantir essa proteção, o Tratado da Antártica, ratificado em 1961, regula a atividade dos países e prevê que o continente seja explorado somente para fins de paz e de promoção da ciência internacional. O Brasil aderiu ao tratado em 1975 e iniciou as atividades em 1982, com a criação do Proantar. Em 1983, passou a ser um membro consultivo, o que dá direito a voto e veto em decisões relacionadas ao território. Depois, o Protocolo de Madri, em vigor desde 1998, concedeu à Antártica o status de “Reserva Natural Internacional dedicada à Ciência e à Paz” e definiu a proteção integral do continente por 50 anos, até 2048. 

Por mais que as ações dentro do território sejam reguladas para a preservação ambiental, a região é uma das mais sensíveis ao aumento da temperatura do planeta – desde 1950, a Península Antártica esquentou quase 3ºC. Ao mesmo tempo, a cobertura de gelo está diminuindo. Em 10 de setembro de 2023, o gelo marinho antártico atingiu a extensão máxima de 16,96 milhões de quilômetros quadrados no inverno, o que representou o menor parâmetro da história registrado pelo monitoramento por satélite iniciado em 1979

Testemunhos pandêmicos

Os recordes preocupantes foram registrados após a pandemia de covid-19, período que dificultou a logística para realizar pesquisas em campo. No caso do Brasil, as atividades foram suspensas em julho de 2020, meses após a reinauguração da base brasileira Estação Antártica Comandante Ferraz (EACF), na Península Antártica.

Para o pesquisador do Departamento de Microbiologia do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Luiz Henrique Rosa, o período pós-pandemia foi difícil em diversos sentidos. 

“As expedições representam de 10% a 15% do trabalho das pesquisas. O restante é feito nas instituições de ensino, no Brasil. Além da pandemia, estávamos sem verba nas universidades e a instabilidade política fez o dólar disparar, o que aumentou os custos de tudo que havia sido planejado”, disse. 

O pesquisador Luiz Henrique Rosa, da UFMG, na Pensínsula Antártica em janeiro de 2020. Foto: Jonne Roriz/ Nosso Impacto

De acordo com o glaciologista e vice-presidente do Comitê Científico sobre Pesquisa Antártica (SCAR), Jefferson Cardia Simões, o verão antártico de 2023 a 2024 será o primeiro com a expedição completa do Proantar desde a pandemia de coronavírus. A retomada coincide com mudanças importantes, como o planejamento estratégico para o período de 2023 a 2032, elaborado e publicado neste ano, que inclui a frente de exploração no Ártico. 

Por um lado, da mesma maneira como o Brasil suspendeu as ações em campo, outros países enfrentaram o mesmo problema na pandemia. “O que nos ameaça no contexto global é perder o protagonismo, principalmente por termos saído de um governo anticiência. O país mantém altos e baixos nas áreas de ciência e educação e isso afeta a nossa participação em fóruns internacionais sobre mudança do clima, por exemplo”, disse Simões.  

Um sinal que demonstrou o comprometimento do Brasil foi a instalação do Criosfera 2, um módulo localizado no interior da Antártica, em janeiro de 2023, que complementa as informações obtidas pelo Criosfera 1, inaugurado em 2012. As estruturas monitoram dados meteorológicos e coletam amostras atmosféricas para análise de composição química, como a média de concentração de CO2. “Teremos medições independentes e, por estar em um local totalmente isolado, os dados representam uma média global. O Criosfera 2 é mais um ponto de dados para montar cenários para as próximas décadas”, afirmou. 

Fritura do Ártico

Diferentemente da Antártica, que é um continente, o Ártico é um oceano coberto por uma fina camada de gelo perene e rodeado por terra. A região inclui partes do Canadá, Groenlândia, Islândia, Noruega, Suécia, Finlândia, Rússia e os Estados Unidos. Com o atual ritmo de aquecimento do planeta, o gelo do Oceano Ártico poderá desaparecer por completo até 2100. 

“O programa antártico brasileiro está se tornando um programa polar”, disse Simões. Segundo o glaciologista, o Ártico é o lugar que mais aquece no mundo e registra cerca de 3ºC a 4ºC acima de níveis pré-industriais. “A transformação do ambiente vai levar a mudanças no cenário geopolítico com a militarização do Ártico, abertura de novas rotas de navegação e o estresse do sistema internacional. O Brasil quer saber o que está ocorrendo lá e como isso pode nos afetar no futuro”, afirmou. 

Em julho deste ano, o Brasil realizou a primeira expedição científica ao Ártico – Rosa, da UFMG, integrou a equipe. De acordo com ele, a proximidade com a Antártica é natural pela localização geográfica, mas o Brasil tem parte de seu território no Hemisfério Norte. “Não sabemos o que pode acontecer com relação a microrganismos com o derretimento do gelo, por exemplo. O Brasil está estudando esse cenário, preocupado com a soberania nacional e mundial”, disse.

No cenário de aquecimento perigoso da Terra, o degelo do Oceano Ártico terá impactos geopolíticos significativos. Somente navios quebra-gelo conseguem atravessar a região, mas, em um planeta mais quente, embarcações comerciais terão o caminho livre. Apesar dos prováveis impactos ambientais com o aumento da frota no ecossistema, os custos de transporte poderão ser reduzidos em até 40%. A abertura da rota aumentará as oportunidades comerciais entre Rússia e China, estreitando ainda mais a relação bilateral entre os países.

Fora a questão logística, o Ártico tem cerca de 13% do petróleo inexplorado no planeta, 30% do gás em reservas marinhas e até 1 trilhão de dólares em metais e minerais. Em 2007, ano em que o Ártico teve uma redução histórica da cobertura de gelo, a Rússia levou a 4.300 metros de profundidade uma bandeira de titânio de um metro de altura na cordilheira subaquática de Lomonosov, que Moscou afirma, até os dias de hoje, estar ligada à sua plataforma continental. O local teria bilhões de dólares em petróleo e gás. Atualmente, Rússia, Canadá e Dinamarca disputam a soberania sobre o território. 

Destaque polar

Produzir ciência na Antártica e no Ártico depende da liberação de recursos. Neste ano, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) anunciou um edital no valor de 30 milhões de reais, a maior chamada pública exclusiva para a ciência antártica, para financiar o próximo ciclo no continente gelado. 

Para Rosa, é importante que a sociedade tenha a percepção sobre os impactos do Hemisfério Norte, e do Polo Norte, no Brasil. “O Brasil se insere no estudo polar preocupado com as mudanças climáticas reguladas pelos polos. Com o aumento do derretimento de gelo, quem mais vai sofrer são as populações vulneráveis e pobres. Nas comunidades, o aumento da temperatura interfere em questões como estresse, violência e criminalidade. Tudo está interligado”, disse.  

Foto: Jonne Roriz/ Nosso Impacto

Segundo Secchi, da FURG, que é membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza (RECN), a Antártica produz grandes volumes de krill, peixes e crustáceos. No futuro, esses recursos podem ser explorados para garantir a segurança alimentar de diversos países. 

Contudo, a diminuição da cobertura de gelo interfere diretamente na produção do krill, que é a base da cadeia alimentar de baleias e outros animais. Estudos detectaram que, em anos com baixa disponibilidade do crustáceo, a taxa de nascimento de baleias-francas é reduzida. Acredita-se que o mesmo aconteça com outros predadores do animal, como focas, pinguins e peixes. 

Foto: Jonne Roriz/ Nosso Impacto

“A pesquisa antártica é de interesse para o Brasil e para o mundo. Ela interfere na segurança alimentar, na regulação do clima, na agricultura, na pesca, na saúde, no bem-estar da população. A ciência pode demonstrar que, se nada for feito, a própria espécie humana está em risco”, disse Secchi. 

De acordo com Simões, a visão distorcida que as pessoas têm sobre o globo faz com que muitos pensem que as regiões polares não afetam o cotidiano da sociedade. “Todo o planeta está integrado. Os oceanos Antártico e Ártico são tão importantes quanto as florestas tropicais para a mudança do clima”, afirmou. Ao longo da próxima década, a ciência antártica vai expandir os seus horizontes de investigação – com ela, a sociedade poderá compreender a conexão entre os polos e o Brasil.

Esta reportagem foi produzida com apoio do Edital Conexão Oceano de Comunicação Ambiental, promovido pela Fundação Grupo Boticário.

  • Jennifer Ann Thomas

    Jornalista especializada em meio ambiente e sustentabilidade e cofundadora do Nosso Impacto

  • Jonne Roriz

    Fotógrafo com mais de vinte anos no mercado editorial e publicitário e cofundador do Nosso Impacto

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